Glória Menezes e Laura Cardoso: Brasil se despede de duas gigantes da dramaturgia
O Brasil se despede, com apenas um dia de diferença, de duas das maiores atrizes de sua história. Laura Cardoso, aos 98 anos, morreu na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. Nesta terça-feira (18), foi a vez de Glória Menezes, aos 91 anos, no Rio de Janeiro. Duas trajetórias que atravessaram gerações e ajudaram a construir a história da televisão, do teatro e do cinema brasileiro.
A coincidência torna a despedida ainda mais simbólica. Laura e Glória não foram apenas contemporâneas: elas dividiram cenas, estúdios e momentos importantes da dramaturgia brasileira por décadas.
O primeiro encontro profissional entre as duas aconteceu ainda nos primeiros anos da televisão. Em 1959, na TV Tupi, elas participaram do teleteatro “Um Lugar ao Sol”. Décadas depois, voltaram a trabalhar juntas em “Senhora do Destino”, em 2004.
Laura Cardoso, uma vida inteira dedicada à arte
Laura Cardoso foi uma das pioneiras da televisão brasileira. Sua trajetória começou ainda adolescente, no rádio, em 1942. Dez anos depois, chegou à televisão, na TV Tupi, quando o meio ainda dava seus primeiros passos no país.
Foram aproximadamente oito décadas dedicadas à interpretação. Laura passou pelo rádio, teatro, cinema e televisão e construiu uma das filmografias mais extensas da dramaturgia brasileira.
Na televisão, eternizou personagens em produções como “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Sol Nascente” e “O Outro Lado do Paraíso”. Seu último trabalho em uma novela foi “A Dona do Pedaço”, em 2019, quando interpretou Matilde.
Mesmo depois de deixar as novelas, Laura continuou ligada à arte. Em 2025, participou do curta-metragem “Dona Rosinha” e também apareceu em uma vinheta de fim de ano da Globo ao lado do bisneto.
Sua importância ultrapassou a televisão. No teatro, destacou-se pela capacidade de transitar entre o drama, a comédia e personagens de grande intensidade, sendo reconhecida como uma das grandes intérpretes brasileiras.
Glória Menezes, uma das grandes damas da televisão
Glória Menezes também começou sua trajetória artística ainda nos anos 1950. Na televisão, estreou em 1959 e rapidamente se tornou um dos nomes mais importantes da nova dramaturgia brasileira.
Em 1963, protagonizou “2-5499 Ocupado”, ao lado de Tarcísio Meira, produção considerada a primeira telenovela diária do Brasil. A parceria profissional com Tarcísio se transformaria também em uma das histórias de amor mais conhecidas da televisão brasileira. Os dois permaneceram casados por 59 anos, até a morte do ator, em 2021.
Ao longo de mais de seis décadas, Glória construiu uma galeria de personagens memoráveis. Entre eles estão as diferentes personagens que interpretou em “Irmãos Coragem”, Ana Preta, em “Pai Herói”, e Laurinha Figueiroa, em “Rainha da Sucata”. Também esteve em produções como “A Favorita”, “Senhora do Destino” e “Totalmente Demais”, sua última novela.
No cinema, também deixou sua marca. Um de seus trabalhos mais importantes foi “O Pagador de Promessas”, filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962.
Pouco antes de sua morte, Glória ainda havia sido homenageada na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, em uma cerimônia realizada em 12 de agosto de 2026.
Duas histórias que se encontraram
A história de Laura Cardoso e Glória Menezes se cruzou em diferentes momentos da televisão brasileira.
Laura chegou à TV quando o veículo ainda estava nascendo no país. Glória fez parte da geração que ajudou a transformar a televisão em um dos principais meios de entretenimento e cultura do Brasil.
Elas atravessaram diferentes fases da dramaturgia: do teleteatro ao surgimento das novelas diárias, da televisão ao cinema e ao teatro, da transmissão ao vivo aos grandes estúdios e às produções modernas.
E, mesmo com trajetórias próprias, permaneceram ligadas por uma admiração que atravessou décadas. Em um depoimento relembrado após a morte de Glória, Laura falou com carinho sobre a atriz e sobre Tarcísio Meira, recordando o início da convivência entre eles na TV Tupi.
O fim de uma era
As mortes de Laura Cardoso e Glória Menezes representam mais do que a despedida de duas atrizes consagradas. É a perda de duas testemunhas e protagonistas de diferentes capítulos da própria história da dramaturgia brasileira.
O impacto da despedida foi tamanho que o governo federal anunciou luto oficial de três dias em homenagem às duas artistas. Na mensagem, foi destacado que suas carreiras se confundem com a história da dramaturgia brasileira e que seus trabalhos permanecerão como referência para novas gerações.
Laura partiu aos 98 anos, depois de cerca de oito décadas dedicadas à arte. Glória morreu aos 91, depois de mais de seis décadas diante das câmeras e nos palcos.
Duas mulheres de gerações próximas. Duas trajetórias gigantescas. Duas artistas que ajudaram a ensinar o Brasil a assistir, sentir e se reconhecer nas histórias contadas pela televisão.
Com apenas um dia de diferença, o país perdeu duas gigantes. Mas personagens como as que Laura Cardoso e Glória Menezes construíram não morrem com seus intérpretes. Permanecem na memória de quem assistiu, se emocionou e cresceu acompanhando suas histórias.
O Brasil se despede de Laura Cardoso e Glória Menezes.
A arte, porém, ficará para sempre.




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